quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Raízes

As ligações entre os diversos estilos de música popular brasileira são previsíveis e na maioria das vezes conhecidas, atribuídas à formação étnica do povo brasileiro. Mas são sempre surpreendentes.

Quando cheguei pela primeira vez em São Luís do Maranhão, ignorante quanto à cultura local, fui desacreditado a um arraial, quando me deparei com a força do Bumba-boi de Matraca (ou de sotaque de matraca). Mais especificamente o Bumba-boi de São José de Ribamar. Sotaque esse totalmente ligado ao Maracatu de Baque Virado pernambucano. A batida forte e ritmada. A presença marcante dos instrumentos percursivos e originais. O maracá, o pandeirão, o tambor-onça e, milhares do instrumento que lhe dá nome, a matraca. Dois pedaços de pau. Os adereços dos brincantes reforçam ainda mais o parentesco próximo dos dois estilos, especialmente os do caboclo de pena. Isso me marcou.

Outra vez, numa ilha do atlântico isolada do interior paraense chamada Ilha do Algodoal, sentado numa barraquinha à beira-mar comendo sarnambi e tomando aquela gelada, me vem aos ouvidos um som que me lembrou imediatamente o Maracatu, agora, o de Baque Solto. A semelhança com o trabalho do Siba, Barrachinha e Fuloresta do Samba foi surpreendente. Perguntei a algum morador, talvez fosse o garçom que nos atendia, o que era aquilo: era um grupinho de carimbó de nativos da ilha, que viviam no outro extremo. Chapei. No mesmo dia à noite, na mesma barraca, sob uma lua fora do normal e estrela a dar com um pau, houve uma apresentação de carimbó. Massa.

Enfim, e por fim, baixei esses dias um disco de Noel Rosa. Que susto: era Bumba-boi de Sotaque de Orquestra soprando nos meus ouvidos. Não era samba, não. De jeito nenhum. E Noel canta boi ou samba? Cada vez vejo que as raízes do samba são as mesmas do boi que são as mesmas do maracatu que são as mesmas do forró. O que as diferenciou ao longo do tempo foi os gênios dos seus mestres e o isolamento ou não da região de seus mestres.

Grandes mestres.

3 comentários:

Thiago de Góes disse...

tudo está relacionado. concordo com você!

Luiz Alexandre Almeida disse...

Viva o nosso Brasil!! Não precisamos importar cultura. Mas temos um grande problema: uma boa parte da nossa população acha que o que é bom tem que, necessariamente, vir de fora. Viva Nação Zumbi, Mundo Livre S/A, Cordel do Fogo Encantado, Mestre Ambrósio, Chico Science, Folcore e outros tantos que ainda podemos ter como refúgio!!!

Hugo Morais disse...

Rapaz, a música brasileira é muita rica. Infelizmente quando se sai daqui vira world music. Uma piada. E tem outra, o brasileiro, no geral, gosta mais do que vem de fora. Se olhassemos para dentro. Aqui em Natal, apesar de ser uma cidade sem apego pela cultura local, existem projetos muito interesantes de preservação da cultura, como o Projeto Felipe Camarão. Lá ensinam a fazer instrumentos como rabeca, ensinam mamulengo, maracatu e outras expressões daqui. Uma ilha em meio a um mar de ignorância.