Certa vez li um post num blog de Marlus Apys (www.apyus.com), blog muito bom inclusive, que me inquietou (ponto pro blogueiro). Pôs-me uma pulga atrás da orelha, para não dizer uma preocupação na cabeça. O título do post é “Quem é imbecil?” e foi publicado originalmente no JH Primeira Edição de 31/07/2007. Sugiro a leitura.
O post fala de um vídeo disponível no site Youtube em que Ariano Suassuna detona a banda Calypso. E o post detona Ariano Suassuna. E achei, por menos relevante que fosse, achei importante emitir opinião.
Pois bem, verifiquemos as partes: não sei quantos anos o velhinho tem, mas são muitos, muitos mesmos. É comum em todo ser humano resistência às mudanças, ainda mais no pessoal de certa idade. Isso se vê até em expressões como: isso não é Rooooock de verdade. O velhinho tem um obra literária e teatral ímpar. E quase a totalidade falando com franqueza de uma certa faceta do nordestino.
Já pela outra parte: quem teve a oportunidade de conhecer o carimbó que ainda é feito no interior do Pará, quem conhece um pouco da cultura verdadeiramente do norte, sabe da real distância disso para o que o Calypso faz. Isso eu, ainda que pouco, conheci e sei. O que dizer sobre os forrós atuais com os forrós pé-de-serra? O que se dizer do É o Tchan?
Apyus no decorrer do texto cita alguns versos da Bossa Nova em alusão aos versos criticados pelo escritor da banda paraense. É fato que os versos são pobres. Isoladamente. Vamos colocar os versos nas músicas e vamos colocar as músicas no contexto cultural da época. E agora? Chega de Saudade intitulou o primeiro disco da dita Bossa Nova, disco que causou um impacto tremendo nas bases culturais brasileiras na voz de João Gilberto.
É verdade, claro, que a banda Calypso tem seu mérito. Agora, esse mérito tem muito pouco do movimento punk, ao contrário do que é dito no blog. Foi uma banda, como tantas outras, fabricadas pela mídia, primeiramente a paraense e depois a nacional. Assim como Limão com Mel, Mastruz com Leite, É oTchan. A distorção que todas essas bandas geraram na sua cultura local é totalmente repugnante e dispensável.
Vi algumas palestras do escritor paraibano. Ele nunca se intitulou como popular, muito pelo contrário, disse claramente que não se considerava popular justamente pelo fato de que o seu público é justamente uma minoria e pela sua formação universitária. O assunto da sua obra é que é o popular.
Apyus pergunta no seu texto quantas crianças ainda dançavam ciranda. Em Natal eu não sei, cidade totalmente desenraizada. Mas dá um pulo aqui no Maranhão. Dá um pulo em Pernambuco. Vai lá no Rio de Janeiro. Dá para ter uma idéia que não são tão poucas assim. Nem todo lugar no Brasil tem vergonha de suas raízes como o natalense tem. E essa cultura riquíssima, que ainda vive em alguns pontos do Brasil, deve muito a algumas pessoas, uma delas é Ariano.
“Bactérias num meio, é cultura” disse certa vez um Arnaldo. Tentar criticar o que se escuta por aí é besteira. Valorizar, só porque é escutado, é uma besteira maior ainda. Deixem o velho pensar, pois ele pensa. Não se preocupem com isso. Deixem o Calypso tocar, que ele se acabará logo. Restando apenas uma gorda fortuna para os donos da banda, nada mais.
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2 comentários:
Rapaz, eu penso que o Calypso não se acabará tão facilmente. Estão tocando até fora do Brasil.E com a pirataria então...
O Brasil é muito rico culturalmente, enquanto nos EUA o rap e o hip hop imperam há tempos, aqui muda. É Ivete Sangalo, É trilha sonora de novela, é sertanejo (ôpa, romântico), é Calypso. Sem falar nos que correm por fora e vivem muito bem. Tudo isso é bom e necessário porque temos opção. Moro aqui nessa cidade sem raiz, como diz você, e não vou a um show de forró, pagode ou axé, muito menos saio em blocos de carnatal. A diversidade é boa, nos torna diferentes. E se formos analisar quem se salva em cada nicho, são poucos, muito poucos.
Já quanto a Ariano, a Marlos e a você, todos deram sua opinião e devem ser respeitados. O problema é que as nossas opiniões estão aqui para alguns, já que nossos nomes não possuem o peso igual ao de Ariano. Ele falou, e vi o vídeo (não sei se é o mesmo) na posse da secretaria de cultura, eu acho, diante de artistas, políticos e muita gente ligada a cultura, que o Calypso não prestava e etc. A exposição foi enorme. Agora se eu fosse o vocalista do Calypso, nem tinha me dado ao trabalho de responder. O que ele fez e faz é reconhecido por milhões de brasileiros. E eles chegaram onde estão por méritos próprios, sem gravadora e nada. Estúdio, banda, gravadora, distribuição e até avião, é tudo deles. Hoje, devido ao sucesso, uma gravadora resolveu distribuí-los pelo Brasil. Sem necessidade, os piratas já fazem isso. E eles lucram é com shows, assim como quase todos hoje em dia.
Então, deixem o Calypso tocar, deixem Ariano falar, Marlos falar, tu falar e a cerveja gelar.
Renato,
Calypso fez sucesso à margem da mídia. Quando eles foram descobertos pela mídia, já faziam sucesso. Ou seja: a mídia apenas referendou o sucesso deles. Isto acontece muito por aí afora. Muito mesmo.
A qualidade cultural independe totalmente do sucesso. Portanto, há produtos bons que vendem, produtos bons que não vendem, produtos ruins que vendem e produtos ruins que não vendem.
A qualidade cultural depende apenas do gosto de cada um. É totalmente subjetivo. quando foge disso, vira preconceito.
Suassuna pisou na bola porque julgou o caráter de alguém pela obra que produziu. E ninguém é imbecil porque fez uma música. Ele mostrou-se extremamente arrogante e preconceituoso.
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